Você também é corrupto? Só ainda não teve a oportunidade?

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10 de março de 2026
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Foto: Daniel Mafra/cancaonova.com

Chega de apontar o dedo para Brasília enquanto se fura fila, sonega imposto e se chama de “jeitinho” o que, na prática, também é corrupção. Hipocrisia também corrói a ética pública.

Por Sammy Chagas|

Vou começar pelo que poucos têm coragem de dizer em voz alta: ninguém é completamente inocente. Continuar fingindo que corrupção é uma doença exclusiva de políticos é uma das maiores mentiras que o Brasil conta a si mesmo todos os dias.

Político corrupto.”
Essa é a frase favorita do brasileiro médio. Aparece no churrasco de domingo, nos comentários das redes sociais e nas manifestações nas ruas. Mas há uma pergunta que raramente é feita: de onde vem esse político?

Ele não surgiu do nada. Não veio de outro planeta. Ele nasceu no mesmo país que você, frequentou as mesmas ruas, estudou nas mesmas escolas públicas sucateadas ou nos mesmos colégios particulares. Foi moldado pela mesma cultura social que forma qualquer cidadão.

A diferença entre ele e o cidadão comum, muitas vezes, não está apenas no caráter. Está na escala e na oportunidade.

E isso incomoda. Porque significa admitir que o problema não está apenas em Brasília. Ele também começa muito mais perto do que se imagina.


O CORRUPTOR TEM CPF

Há uma verdade simples que quase nunca aparece nas campanhas contra a corrupção: não existe corrupto sem corruptor.

O agente público que desvia dinheiro da saúde ou da educação raramente age sozinho. Existe, quase sempre, alguém do outro lado do contrato: uma empresa, um empresário ou um intermediário disposto a pagar ou a se beneficiar de um esquema.

Esse empresário tem nome, tem família, tem redes sociais onde fala sobre ética e transparência. Mas pode ser o mesmo que, nos bastidores, aceita superfaturamento ou paga propina para garantir contratos públicos.

A corrupção não nasce apenas nos palácios ou nos gabinetes. Ela também se manifesta em práticas aparentemente pequenas: quando não se emite nota fiscal, quando se omite renda para pagar menos imposto, quando se compra uma vantagem que deveria ser conquistada de forma justa.

Esses comportamentos formam uma cultura de tolerância com a ilegalidade.


ESQUERDA E DIREITA: A MORAL SELETIVA

Outro fenômeno comum na política brasileira é a moral seletiva.

Quando um escândalo atinge o grupo político que alguém apoia, surgem explicações: “caso isolado”, “perseguição”, “narrativa da mídia”.
Quando o escândalo atinge o adversário, a reação muda completamente: “prova de que sempre foram corruptos”.

O resultado é um debate público contaminado pela lógica de torcida. A ética deixa de ser princípio universal e passa a depender do lado político.

E corrupção prospera justamente nesse ambiente — quando a regra não vale para todos.


“ROUBOU, MAS FEZ”

Poucas frases explicam tanto sobre a cultura política brasileira quanto esta: “roubou, mas fez”.

Ela aparece quando uma obra chega ao bairro, quando um benefício atende determinada comunidade ou quando algum resultado visível compensa, aos olhos de alguns, os desvios de recursos.

Nesse momento, o método passa a ser ignorado. O crime vira detalhe. O benefício imediato se torna justificativa.

Mas dinheiro público desviado sempre tem consequências. O recurso que falta em um hospital, em uma escola ou em uma estrada tem impacto real na vida das pessoas.


OLHAR PARA DENTRO

Antes de apontar o dedo apenas para a política, talvez seja necessário um exercício mais difícil: olhar para dentro.

Quantas vezes alguém furou uma fila e chamou isso de “esperteza”?
Quantas vezes deixou de declarar renda ou buscou algum tipo de vantagem indevida?
Quantas vezes utilizou influência pessoal para resolver um problema que deveria seguir regras iguais para todos?

Essas atitudes podem parecer pequenas, mas fazem parte de uma cultura que naturaliza o privilégio e enfraquece o respeito às regras.

Mudar o Brasil não depende apenas das urnas ou das instituições. Depende também de um compromisso coletivo com a ética no cotidiano.

Enquanto a sociedade continuar acreditando que corrupção é apenas um problema “dos outros”, dificilmente o país conseguirá romper esse ciclo.

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