Marcelo Belitardo enfrenta o jogo da traição: aliados de ontem, punhais de hoje na política de Teixeira de Freitas

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01 de abril de 2026
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Na semana mais simbólica da fé cristã, quando o mundo volta seus olhos para a paixão, morte e crucificação de Jesus Cristo, um tema atravessa os séculos e permanece atual, incômodo e profundamente humano: a traição. Não apenas como episódio bíblico, mas como comportamento recorrente nas relações — inclusive, e com força, na política.

A narrativa da Semana Santa não é apenas sobre dor e redenção. Ela também expõe uma das faces mais sombrias da condição humana. O beijo de Judas Iscariotes não foi apenas um gesto isolado; tornou-se símbolo universal da quebra de confiança. Antes dele, a própria humanidade já havia falhado: Adão e Eva, no Gênesis, romperam com Deus. Mais atrás ainda, o anjo de luz que se tornou Lúcifer representa a primeira grande ruptura de lealdade. A traição, portanto, não é um acidente — é um padrão que atravessa a história.

E na política, esse padrão ganha contornos ainda mais visíveis.

Curiosamente, o ambiente político brasileiro — e não apenas ele — parece conviver com uma contradição permanente: aceita-se a traição como ferramenta de sobrevivência, mas se abomina o traidor. A ruptura de alianças, a mudança de lado, o abandono de projetos comuns são frequentemente tratados como “estratégia”. No entanto, quem executa esse movimento carrega consigo uma marca difícil de apagar: a desconfiança.

Nos últimos dias, esse fenômeno tem ganhado evidência no cenário local. Em Teixeira de Freitas, os discursos do prefeito Marcelo Belitardo indicam um ambiente de tensão crescente. Pelas entrelinhas, percebe-se um sentimento de ruptura — de quem abriu portas, estendeu a mão, permitiu proximidade política e institucional, e agora se vê atingido por aqueles que, outrora, caminharam ao seu lado.

Há, inclusive, um elemento ainda mais sensível nesse cenário: a percepção de que o prefeito tem sido traído justamente por aqueles que ele abraçou institucionalmente e politicamente, oferecendo espaço, confiança e projeção. Quando a ruptura vem de dentro, o impacto é mais profundo. A política pode até relativizar gestos, mas a história não costuma ser indulgente. É ela quem, ao longo do tempo, separa os construtores dos oportunistas e revela, com clareza, o destino reservado aos que optam pelo caminho da traição.

Na política, o gesto da traição raramente vem de adversários declarados. Ele costuma partir de dentro. De quem teve acesso, visibilidade e, muitas vezes, ascensão apoiada em uma liderança. É a apunhalada silenciosa, que não se anuncia em praça pública, mas se articula nos bastidores.

E aqui reside o ponto central: a traição pode até produzir ganhos momentâneos, mas cobra um preço alto no longo prazo. Porque a política é, essencialmente, construída sobre confiança. Sem ela, não há grupo sólido, não há governabilidade estável, não há projeto que resista ao tempo.

A história — bíblica e política — ensina que o traidor pode até avançar algumas casas no tabuleiro, mas dificilmente constrói legado. Judas, mesmo após cumprir seu ato, não encontrou espaço nem entre aqueles que o incentivaram. Tornou-se símbolo não de vitória, mas de condenação moral.

No cotidiano político, a lógica não é muito diferente. Quem rompe por conveniência, quem abandona por cálculo imediato, pode até encontrar abrigo temporário. Mas carrega consigo a pergunta inevitável: se traiu uma vez, por que não trairia de novo?

A Semana Santa, portanto, não é apenas um convite à fé. É também um alerta. Um espelho. Um chamado à coerência.

Porque, no fim, a sociedade pode até tolerar a traição como parte do jogo. Mas jamais deixa de reconhecer — e de julgar — o traidor.

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