“Família em conserva”: quando o recorte distorce o samba e a crítica social vira desinformação

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18 de fevereiro de 2026
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Por Sammy Chagas

A estreia da Acadêmicos de Niterói no Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro em 2026 — abrindo oficialmente os desfiles — repercutiu em todo o país ao unir homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva com uma narrativa forte de denúncia social.

O ponto mais atacado nas redes foi a ala “Famílias em Conserva”, formada por componentes fantasiados de latas com essa inscrição. Bastaram vídeos curtos, compartilhados fora de contexto, para que pessoas autodenominadas “conservadoras” — inclusive ligadas a segmentos religiosos — passassem a afirmar que a escola estaria zombando das “famílias conservadoras”.

Não é isso.
E essa leitura nasce diretamente da desinformação.

O que a ala realmente quis dizer

Dentro do samba-enredo, a “conserva” é metáfora.

A lata simboliza aquilo que é fechado, escondido, abafado, mantido artificialmente para preservar uma aparência social perfeita. A crítica apresentada pela escola é clara: existem famílias que se mostram exemplares em público e nas redes sociais, mas que, dentro de casa, conservam violência contra a mulher, submissão feminina, traições, abusos sexuais, intolerância religiosa, racismo e silêncios cúmplices.

Isso foi explicado pelo intérprete da escola ainda na concentração, antes da entrada na avenida. O enredo não fala de ideologia partidária aplicada à família — fala de hipocrisia social.

O próprio samba traduz essa ideia em um trecho direto:

“Na lata guardam segredos que ninguém vê…”

Poucas palavras, mas um significado profundo: o que está “em conserva” não são valores — são dores escondidas.

Não é ataque à instituição família.
É denúncia de estruturas adoecidas que sobrevivem atrás de uma fachada moral.

Quando o recorte vira arma

Carnaval não é desfile aleatório. É narrativa, teatro popular e crítica social.

Ao retirar apenas um fragmento visual da avenida e ignorar o conjunto do enredo, cria-se uma leitura artificial. O resultado é uma onda de indignação fabricada, baseada em interpretação rasa — ou deliberadamente distorcida.

O mais grave é que muitos passaram a usar a imagem dizendo “essa é minha família conservadora”, sem perceber o alerta embutido na alegoria: famílias que “conservam” a imagem pública enquanto escondem destruição emocional, violência cotidiana e relações abusivas.

E aqui cabe um cuidado essencial: ao se apropriar dessa fantasia como identidade, a pessoa corre o risco de se colocar exatamente dentro da crítica proposta pela escola — a da família que aparenta virtude, mas guarda contradições graves.

Carnaval também é denúncia

A Acadêmicos de Niterói utilizou a avenida para fazer o que o Carnaval brasileiro sempre fez historicamente: dar voz aos silenciados, provocar reflexão e escancarar contradições sociais.

A homenagem a Lula dialoga com esse mesmo eixo narrativo: o Brasil real, marcado por desigualdades, violência estrutural e disputas morais, foi levado para o Sambódromo em forma de arte.

Reduzir tudo isso a um vídeo de poucos segundos é empobrecer o debate público.

Leitura dos fatos, não militância

Este jornalista não está fazendo uma defesa ideológica. Está fazendo leitura dos fatos.

Também acredito na família, no valor da família e na sua importância social. Mas é preciso compreender como a política se movimenta e como ideologias, muitas vezes, usam justamente quem diz defender a família.

Infelizmente, a política subiu ao altar — e isso prejudicou profundamente a evangelização. Tentou-se transferir à política uma responsabilidade social que também é da Igreja, e à Igreja uma função política que não lhe cabe. Esse cruzamento confuso fez com que muita gente passasse a enxergar ações sociais como posicionamento ideológico.

O resultado é triste: fé e religião passaram a ser usadas como ferramentas eleitorais. Basta lembrar declarações do ex-presidente Jair Bolsonaro, que chegou a afirmar que, se não vencesse as eleições, o Deus dele seria um “Deus falso”. Isso não é espiritualidade — é instrumentalização da fé.

Por isso, é fundamental ter cuidado para não sermos conduzidos por recortes, fake news e vídeos fora de contexto.

Cada pessoa tem seu lado — isso é natural e faz parte da democracia.
O que não pode se perder é o respeito.

Em síntese

A ala “Famílias em Conserva” não ridiculariza famílias conservadoras.
Ela denuncia lares que mantêm aparência enquanto escondem abusos.

O samba não afronta a fé.
Confronta a hipocrisia.

Não combate valores.
Questiona violências naturalizadas.

E fica a reflexão final — direta, necessária e incômoda:

para aqueles que se identificaram com as “famílias em conserva”, qual é o segredo que está escondido na sua família… e que ninguém vê?

Porque, na avenida — como na vida — nem toda família que parece perfeita é, de fato, saudável.

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