“A culpa foi dela?” ACM Neto monta nova chapa em Jequié, exclui aliados e tenta reescrever a própria derrota
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26 de março de 2026
Discurso do ex-prefeito acende alerta político ao transferir responsabilidade eleitoral e reacende debate sobre postura e liderança
JEQUIÉ (BA) — Em um evento que deveria marcar apenas a definição de sua nova estratégia eleitoral, o ex-prefeito de Salvador ACM Neto acabou colocando mais lenha na fogueira do debate político na Bahia. Ao anunciar sua chapa para 2026 — com Zé Cocá como vice e João Roma e Ângelo Coronel na disputa pelo Senado — Neto não apenas redesenhou seu grupo, como também tentou redesenhar o passado.
E fez isso mirando diretamente em sua ex-companheira de chapa, a empresária Ana Coelho.
Ao revisitar a derrota de 2022, Neto adotou um discurso que, para muitos, soou como fuga de responsabilidade: o erro, segundo ele, teria sido a escolha da vice. Em outras palavras, a derrota não foi dele — foi dela.
A declaração caiu como uma bomba no meio político.
Nos bastidores, a leitura é direta: ao invés de assumir o desgaste natural de uma campanha e reconhecer o resultado das urnas, que consagrou Jerônimo Rodrigues como vencedor, ACM Neto opta por empurrar a conta para terceiros. E, neste caso, para uma mulher que integrou sua própria decisão estratégica.
A crítica é inevitável — e dura. Ao transferir a responsabilidade, Neto não apenas evita a autocrítica, como também reforça uma postura considerada por muitos como machista: a de atribuir o fracasso a uma mulher, como se a condução da campanha, o discurso político e as alianças não fossem, essencialmente, responsabilidade de quem liderava a chapa.
Mais grave ainda é o contexto. A escolha de Ana Coelho não foi um acaso, nem uma imposição externa. Foi uma decisão direta do próprio Neto. E agora, ao colocá-la como símbolo do erro, cresce a percepção de que a empresária teria sido usada como peça de estratégia — e, depois, descartada como justificativa para o insucesso.
Para analistas políticos, o movimento beira o oportunismo eleitoral: uma tentativa de limpar a própria imagem às custas de quem esteve ao seu lado na disputa.
Enquanto isso, outro recado ficou claro no evento: Marcelo Nilo segue, mais uma vez, fora do jogo. A exclusão do ex-aliado reforça a impressão de que a nova chapa de Neto não apenas reorganiza nomes, mas também redefine quem serve — e quem pode ser descartado — dentro do seu projeto político.
O problema é que o eleitor não esquece.
Ao tentar recontar a história de 2022, ACM Neto entra em um terreno arriscado: o de subestimar a memória política da população. A derrota nas urnas não foi decidida por um único fator, nem por uma única pessoa. Foi resultado de um conjunto — campanha, discurso, alianças e, sobretudo, da escolha soberana do povo baiano.
E contra isso, não há narrativa que resista.