Um Brasil que envelhece — e precisa se preparar

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09 de novembro de 2025
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No primeiro dia de aplicação do Enem 2025 — 09 de novembro — o tema da redação trouxe à tona uma questão central para as próximas décadas: “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”. O desafio não é meramente demográfico — trata-se de garantir dignidade, saúde, assistência e protagonismo a uma parcela da população que cresce aceleradamente.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a proporção de pessoas com 60 anos ou mais aumentou de forma marcante nas últimas décadas. Estima-se que, até meados do século, o Brasil terá cerca de 30 % ou mais da população nessa faixa etária. Tal cenário exige mudanças profundas — não apenas em números, mas em políticas públicas, formação profissional, infraestrutura de saúde e cultura de convivência intergeracional.


1. A dimensão do envelhecimento e suas consequências

Crescimento da população idosa

O relatório de projeções demográficas revela que a população brasileira deixará de crescer em número bruto por volta de 2041, e a idade média subirá para mais de 48 anos até 2070. A parcela de idosos (60 anos ou mais) passou de aproximadamente 8,7 % em 2000 para cerca de 15,6 % em 2023, e continuará aumentando. No cenário futuro, a predominância de pessoas idosas exigirá repensar desde os serviços de saúde até a previdência, passando por infraestrutura urbana, mobilidade, habitação e mercado de trabalho.

Impactos sociais e econômicos

O envelhecimento traz, por um lado, oportunidades — maior longevidade, experiência acumulada, potencial de novas formas de participação social. Por outro, impõe custos elevados ao sistema de saúde e à seguridade social; reduz a força de trabalho e muda a pirâmide etária; demanda mais cuidados e adaptações físicas. Em resumo, envelhecer bem exige ação — o simples aumento da expectativa de vida não garante qualidade de vida na fase idosa.


2. Principais desafios: escassez, falta de regulamentação e formação profissional

Escassez e adaptabilidade dos serviços

Com o aumento do número de idosos, cresce a necessidade de serviços assistenciais, de saúde, cuidados domiciliares, moradias adaptadas, mobilidade urbana acessível. A carência dessas adaptações ainda é grande. A título de exemplo, embora existam diretrizes como o Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003), a implementação permanece desigual.

Falta de regulamentação da profissão de cuidador

Há iniciativas legislativas recentes para normatizar o trabalho do cuidador de idosos. A Projeto de Lei 3367/2025 (em tramitação) propõe regulamentar a formação de cuidadores, com requisitos como idade mínima, ensino fundamental completo e curso reconhecido. Até que essa regulamentação esteja consolidada, persiste o risco de que os cuidados prestados sejam informais, sem padrões de qualidade ou segurança adequados.

Formação de profissionais e cuidadores

A formação especializada de cuidadores de idosos ainda é incipiente no Brasil. Como aponta reportagem, cresce o número de pessoas que buscam se qualificar para a área, mas a oferta e a padronização dos cursos seguem aquém das necessidades. A falta de profissionais bem formados compromete a qualidade do cuidado e pode agravar a dependência dos idosos ou gerar sobrecarga em famílias e no Estado.


3. Políticas públicas, saúde e acessibilidade: o que está em jogo

Marco legal e diretrizes

A Constituição Federal (art. 230) reconhece que a família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar os idosos, garantir sua participação na comunidade e assegurar dignidade, bem-estar e direito à vida. O Estatuto do Idoso complementa essas garantias. Além disso, a Lei 15.069/2024 instituiu a “Política Nacional de Cuidados”, que prevê responsabilidades públicas e familiares para o cuidado de pessoas em situação de dependência — incluindo muitos idosos.

Saúde da pessoa idosa

A mudança de perfil etário exige que o Ministério da Saúde e os entes federativos reforcem ações de prevenção e atenção às doenças crônicas, fragilidade, funcionalidade, saúde mental, reabilitação e cuidados prolongados. A abordagem deve ir além da cura: visa promoção de autonomia, envelhecimento ativo e adaptação de serviços ao idoso.

Acessibilidade e inclusão

Para garantir cidadania plena dos idosos, são essenciais medidas que incluam mobilidade urbana adaptada, habitações acessíveis, transporte público universal, ambientes públicos seguros, tecnologia assistiva, além de políticas intergeracionais que valorizem o papel social dos mais velhos. A inexistência ou precariedade dessas medidas limita a participação social dos idosos e reforça a exclusão.


4. Urgência de perspectivas transformadoras

O tema escolhido pela prova do Enem 2025 — “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira” — aponta não apenas para problemas, mas para oportunidades de mudança. O envelhecimento populacional já não é um fenômeno distante: ele exige respostas imediatas, estruturadas e integradas.

Garantir que envelhecer no Brasil signifique viver com autonomia, saúde e dignidade requer investimento em políticas públicas eficazes, regulamentação profissional adequada e valorização social da pessoa idosa. Sem essas ações, corre-se o risco de que a longevidade se transforme em vulnerabilidade.

 

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